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Acerca de

com os olhos de menino mudo

32 poemas escritos em 2019

« trajeto »

 

a subida da serra me decompõe

subida fria, apaga-me

 

e para reconstituir os fragmentos

— e as paisagens —

à luz de horizontes tremidos

distâncias incorrigíveis 

 

das portas d’água até a enseada

um braço de mar escondido.

« serração cor de bronze »

dos tornozelos à testa

torneio-me campeão

 

e quando arrefece-me os pés

urram aflições

 

ciscando silêncios

descem-me véus

 

e sem luzes

sou o salto que se cala

na grama ressequida

uma nada…

 

só um refrão.

 

de bronze ovalada

no casco da memória

Eia, a sofrida gratidão!

 

resta-me baço

longas descidas

às vésperas das ilusões

 

quando fogos gemidos

rebentavam neblinas

tremeluzindo faróis 

 

gritos e nuvens

suspensos na barra

apensos às naves

 

brios fumegantes

dos Santos e terão

nessas horas êxtases 

 

que dos anos

se vão


— inglórios.

 

pisca-piscas

luziam 

centenas de vezes

nas matas turvas

chuviscos

quase

verdesbranquiçadas 

 

pisca-piscas ardiam 

vistas cansadas 

a noite tecendo 

fileiras inteiras 

travadas 

 

pisca-piscas cruzavam 

queimadas 

de qual não se vê

nada

umas brasas

 

pisca-piscas

ciscavam 

silêncios

no escuro 

arvoravam

 

e os carros enfeitiçados

seguiam o bailado 

viário 

até o fim 

nas cristas 

do mar.

 

me cala

a estrada estridentes

estrelas

 

os ferros trepidando

siderúrgicas

 

no quase limite

dos verdes

 

me ouço puídas

auroras das muitas

 

e sobem-me eixos

entremeadas retóricas

pinos e

navegadas correntes

 

afora

o teu mundo estou

entre auroras.

« protonauta — decurso »

 

detidamente incerto

traça o mapa da angústia

 

como quem sai de uma terra

deserta de ontem

 

e salta nas claras espumas

das âncoras frágeis

 

supura com aço as cristas

tremidas e os olhos

 

surgidos horizontes possíveis

novos outros

 

instantes quilhados de mar.

 

 

mirar as águas tranquilamente

soprar as tardes respirando

os feixes dourados

trazidos do capim endêmico

 

restaurar a paz dos outeiros

ao norte de hoje.

 

Aiá,

Santa Catarina!

 

Somos desafeitos as serranias

com ou sem futuros

somos aquilo que faz a medida

das pedras visorizonte

 

Miserere Nobis!

 

Somos frontes, ombros e fortes

tranquilos remansos quase

à beira do sul e do norte

somos isso de ontem.

 

 

sendo de abraços traslados no tempo

Salve, Amigos!

 

em traços traídos de ventos

um pavilhão de memórias sonhadas

 

encontram-se vozes saídas

do porto vertidas em longos vestidos d’água

 

cetins e esmolas, quem sabe a forma

de viver sem partir, essa que me vai

descolorindo-se agora.

 

de onde baixava neblina

a memória estalava 

nos encaixes dos trilhos 

 

paralelepípedos 

levam nos olhos tremidas as casas 

centenas de anos histórias

 

restam

o sobrado, a esteira, a trave

 

e o signo dos Andradas

a assobiar nos córregos

imorredouros dos Santos

 

 

« protonauta — in-curso »

 

cruzam correntes

aos ventos e lentes

 

se entremeasse buscas

o navegante circundaria

ou ia circum-enfeixando

os brilhos nas cristas

e as luas

e os seus manuscritos

 

contudo

perder-se-ia na esperança

da quilha rasgando o mar.

 

 

reluto entre as coisas

 

irmãos,

ando por aí auscultando-me

 

paisagens!

os ruídos que me deixam vagar

 

esperançando pedaços.

 

folhas guardam

réstias e filigranas dobras e manchas

 

de um momento imenso

transcorrendo lá trás.

 

e o pátio naval

à espera do homem:

 

sua imagem riscada

jorra

no tanque de centeio-granel

(esmiuçadas vistas)

 

como estrangeiro

que perde o contorno

seu corpo é fendido

em múltipla perscrutação

 

é um homem no pátio

à espera de

verter-se jorrando

de volta ao tanque.

 

são quatro guindastes

emborcados no cais

 

pendulam

na alça do tempo aço

e é como se fecundassem

nas naves os cascos

bojudos inteiriços

 

não fossem tão amarelos tão

opunha o meu pênis de fora

e mijava eu mijava neles

 

mas

a mãe do tempo estronda os mares

ondula containers e hastes

 

ao contrário das naves

esses guindastes

copulam 

no rapto quase

 

aços esticados 

de suor e estrada

 

na faixa estreita do cais

corpos escalam

 

e os homens de cinta

martelos e facas

serrilhadas

 

serram seteiras

retraçam a malha viária

 

apertam ales encaixes 

e frisos clampeiam os galhos 

 

despem de alma

a avenida debaixo

com retorcidos aços.

 

« hommage »

a gilberto mendes (1922-2016)


 

alguém aponta o azul 

na ponta do mar

 

vazada rebentação 

na ressaca de outono

 

rumora os frios

hibernados d'hiver

 

ressentindo as águas 

nos olhos e o dedo 

em riste e o rosto 

 

crispa no sono triste

sonha Gilberto ao Sul

insiste!

 

desse poema existe-

rá um outro horizonte 

riso e anverso

que há

 

de Se transparecido 

o seu o céu 

zunindo

azulindo

zunirá !

 

 

 

a ilhota do casco quase

sem penas assemelha-se 

a um triste urubu

 

e quando

na vazante se abre

alvéolos e fissuras

— umas tardam outras

que não.

 

lá 

batem asas esgueiras

na maré um desvão

 

entre os pés incertos

Gilberto, escoam suas frases inteiras

flautas e penas!

 

transepto turva azuis

teus testigos de luz

 

e caladas as velas

sopram sequelas

 

mira! respira inserta

o teu fragor

 

em mil cacos amigos

fluirá sempiterno.

 

sempre terna fratura

 

ancora a realeza

do outono

 

quando o mar

se abraça aos rochedos

 

depondo lágrimas

de verão

 

em alturas

um tino febril

à luz dos invernos [frios]

 

brisam-me logo ali.

 

ouvido

é brilho ao fundo

 

unindo pétalas

e perfumes

 

cristalino perfura

largura das naves

— é fonte memória

e jazigo

 

por isso o que ouço,

aceito, contudo

 

e aceso me vejo

em tudo repleto

em

rumores e amores

escusos.

 

e canto 

verdejo

sempre ruídos

oclusos

 

dou-me a pensar

os ouvidos dois cacos

obscuros.

 

« nasço »

 

noite tecida de inverno

no véu rumores e outros 

pervagam

 

um grito 

arfa 

estival 

exala afastado

paisagens das tardes de maio

 

 

e vamos mãos dadas no outono 

que o árido da estrada sublinha 

o veio tracejado no fogo da mata

 

nossa calma de angústia 

macilenta é descida no campo

somos os áridos perambulantes

de casa em casa que somos.

 

nesse remanso se fecha

uma abraço quase

encanto

 

e a história prossegue

na mesma toada

distante

 

quando horizontes

fechavam os encontros

nas pálpebras à mil braças 

do mar.

 

 

para as pessoas que amo

desencarnar amarguras

renovados olhos: te amo!

ofusca.

 

pelo trastejar das facas

a brilhar na cozinha

sei que nasci

e o som das espátulas reluzindo

as velinhas retintas

de outras passagens, sim

eu sei que nasci nas velas do bolo

e os guardanapos soprados

de engano eu vi

todas as eras em que

quase sorri, das casas e mesas

e os pés rangentes friccionando

sempre o mesmo dilema

de quem se faz um sorriso

sem fim ou um

solto delírio enfim — trrrim!

« a praça »

 

no alto parado a cúpula de prata

os ponteiros amarronzados 

na curva gravada o tácito bordado

emblema ou neblina dos Andradas.

 

divisa ou não é clara:

acusa esta cidade 

no registro de uma noite vaga.

 

— vaga vaga lua mundo 

vaga lúmen vaga!

 

no cais alarmado um sujeito em brasas 

recupera o silêncio da praça 

e se arma veterano na selva de nada

colhe uns trocados cambaleando

 

avisa os que passam ou não:

imunda cidade

vestígio de uma noite alta

 

— vaga vaga lua mundo

vaga lúmen vaga!

 

o sujeito agora parece tristonho 

caixas nas costas os outros 

trançam correntes altas 

e os olhos marejados tontos

 

— vaga vaga lua no cordame baixo 

vaga lúmen vaga lua hic!

vagabundo vaga!

« Salão de Buda »

 

a cortesia e os olhos

me doem:

 

sutilezas re-nublam 

os teus

afogados incensos

 

e cor azulscura fixa

nas portas sombras

retificadas

 

para que vibre 

o salão da memória

o bronze

 

e logo eu você

e quem sabe essa roda

viddharma 

 

restaure os giros

das portas: 

entre os olhos fechando 

agora 

seus piscos de padme hum.

« a dois »

 

nossas datas se encontram

esquecidas

escoam no tempo de todo silêncio

despidas

 

nossas datas confrontam 

mentiras

proam no centro das ondas fremidas

aflitas de mar.

 

depressa! faz de conta

que a vida é bruta

vire a fera

troa no surto

um 

surto profundo

coletivo e crú 

teu feto-grito

hirto!

 

dexasperançado, frua!

 

no surto nos reformamos

estátua, transcritos em goma

suja este teu poema um

— fino retrato

das pedras a nudez

de passados quase que fartos

a vida é rum-ruminar.

diga alto lá!

— máquina reentrante

fendida na estante

empoeiradas estreitas

dobras e margens

no horizonte da forma

contudo,

revirei esses túmulos

e achei meu visionamento

futuro, o que faço sou

teu rumo fecundo

acolha-me tu, agora

sem não, eu afundo!

 

« silêncio »

após Fernão Mendes Pinto

 

ter outro tempo para sangrar

extemporâneas as tuas

outras feridas.

 

e erguendo-se em prol de tantas

perlaborar teu senso silente.

 

navega-te entremeadas

tuas flutuantes correntes.

 

de vinte-um-anos clausuras

levanta a bandeira rasgada

impõe o teu

e reticente desdobra itinerários

de antes, das naus e ferros

ao sul do Oriente, sonha

os teus filhos descrentes.

« cogitação »

as minhas figurações talvez me pertençam 

ou a elas me enrosco transgeracional

 

aliviado talvez 

pelo deserto certo que sei 

a chorar as minhas perdas

quem sabe desentristecerei

 

a fazer deste hypo-torturante declínio

o meu lugar escondido

onde cantam os românticos 

afundados no estreito canal

dos juízos terminais

assim, 

me desmodelo de pronto.

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