A hiper lentidão no Qin e a estética digital
- há 1 dia
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Tenho reparado com certa frequência no número de performances em plataformas digitais chinesas que priorizam execuções de peças tradicionais do repertório em tempos lentos ritmicamente alongados. Comecei a me perguntar como é possível esticar tanto no tempo uma peça musical tradicional de dois minutos e transformá-la em quase cinco minutos. A resposta à primeira vista avaliação tanto óbvio: os recursos tecnológicos de gravação que potencializam e ressaltam a ressonância do Qin criam um efeito de espacialização que nunca visto na história. Assistam, por exemplo, à instrumentista Bai Wuxia, membro do ultra pop Zide Guqin Studio, interpretando 良宵引 (Liang Xiao Yin). São tantas camadas de reverberação digital que um simples toque planíssimo se sustenta por 10 segundos ou mais. Imagine se fosse um toque fortíssimo?
A princípio, pode parecer uma crítica incipiente apontar esse tipo de minúcia. No entanto, deve-se ter em vista que a performance digital do Qin é caracterizada por um circuito de retroalimentação: de um lado, o instrumentista com presença digital estabelece uma atmosfera de escuta que instiga e forma seus ouvintes, de modo que estes últimos tendem a ver no Qin uma aptidão quase mágica para a duração e ressonância no tempo, devo dizer, totalmente irreal.
Chega a ser curioso que a adição de reverbs na captação com microfones profissionais e as subsequentes edições no tratamento da captação de áudio no estúdio de gravação busquem emular uma característica central da sonoridade do Qin, a saber, seu profundo sentido de persistência na ressonância das cordas.
O simulacro não pára por aí.
Temos, de um lado, a substituição da escuta pela visualização dos dedos do intérprete, que oscilam suavemente sobre o tampo harmônico, estabelecendo um efeito visual de lentidão e suavidade sedutores, muito embora estas façam parte da ilusão digital por meio de recursos tecnológicos de gravação, bastante acessíveis a qualquer um hoje em dia. De outro lado, encontramos o espaçamento métrico na performance de velhas tablaturas, cujo efeito rítmico é uma dispersão temporal, no sentido de que a estruturação rítmica cede lugar a um espaço de ressonância somente possível na edição sonora digital.
Em minha opinião, a ponto de desconfigurar o afeto central dessa música (tranquilidade revigorante) em prol de um simulacro/envelope sonoro digital "todo-envolvente".
良 宵引 Liang Xiao Yin é uma peça tranquila, mas revigorante - e não são poucos os intérpretes que têm optado por tempos lentos em suas interpretações, com a diferença de que estes inserem a duração da ressonância num espaço virtual que remete ao conceito de retorno ao vazio. Aspecto praticamente inexistente nas performances digitais, em que o envelope sonoro se estende ao infinito, sem, de fato, jamais adentrar a esfera da escuta interna do indivíduo. Ao contrário, o efeito digital é a remoção desse espaço simbólico de escuta, tão valorizado ao longo das épocas. Ao menos, em geral, o tão comentado "som do vazio" refere-se ao limite do audível, o qual o som transcende, projetando internamente ao qin player que absorve a materialidade do som em seu corpo.
Dentro da mesma lógica performática, vale notar também outra performance dessa instrumentista da peça 石上流泉 Shishang Liuquan, numa métrica rítmica hiperdilatada, para, no meio da música da peça, alternar para um surto explosivo de agitação. Já faz uns bons quatorze anos que toco essa peça e, claro, sei que a seção interna é mais andada ou agitada. Mas não a ponto de criar um contraste tão bipolar quanto este. A mim, parece que a alternância rítmica brusca nunca foi objeto de interesse dos mestres do passado.
Tudo isso mostra o grau de maleabilidade na performática digital, no sentido de favorecer cenários e ambiências sonoras hiperressaltadas que, de outro modo, seriam impossíveis de alcançar, por exemplo, a um estudante de Qin tocando seu instrumento em seu quarto. De certo modo, não é difícil enxergar aí um produto de consumo, embora, com certas ressalvas costumeiras, a favor da divulgação do patrimônio histórico intangível do Qin, se é que podemos falar nesses termos no que concerne aos ambientes digitais.
Meus comentários aqui não têm a intenção de desqualificar o trabalho dessa instrumentista, cujos esforços e sensibilidade excepcionais (e as produções impecáveis) vêm popularizando o Qin e levando-o a destinos geograficamente muito distantes. Minha intenção é apenas fazer notar como o impacto das mídias digitais e dos recursos tecnológicos de gravação altera substancialmente o lugar da escuta histórica referente ao Qin, bem como refletir sobre modos de compressão e preservação de uma escuta mais cotidiana e tradicional.
Acredito que vale a pena falar sobre isso.


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