Reflections on Guqin Teaching & Learning
- Andre Ribeiro
- 18 de dez. de 2025
- 3 min de leitura

NYQS Meeting (August 3, 2025)
O encontro de 3 de agosto de 2025 reuniu membros e convidados da New York Qin Society para uma reflexão ampla sobre ensino, aprendizagem e transmissão do guqin, alternando debate com interlúdios musicais. Ao longo da conversa, emergiu um eixo comum: o guqin é aprendido não apenas como técnica instrumental, mas como ecologia de práticas — históricas, corporais, estéticas e comunitárias — em que repertório, contexto e modos de transmissão definem o sentido do aprendizado.
Técnica, estética e o problema do “ideal performático”
A discussão se inicia a partir de uma tensão contemporânea frequente: a comparação entre o praticante amador e o performer profissional, amplificada por padrões de palco e pela estética “pronta para o YouTube”. Muitos participantes afirmaram que a técnica é um fundamento incontornável, mas que ela não deve ser confundida com exibicionismo. O prazer estético profundo, segundo várias intervenções, tende a aparecer quando o domínio técnico se torna interno e disponível, permitindo que o ouvido e a sensibilidade conduzam a música com mais liberdade.
Uma formulação recorrente organizou essa ideia em três níveis de desenvolvimento: (1) domínio técnico; (2) maturação artística/estética; (3) uma camada espiritual ou metafísica, descrita como integração plena — um retorno ao “espírito do iniciante”, porém num patamar transformado. Importante: esses níveis não foram tratados como degraus rígidos, mas como camadas que coexistem e se reequilibram ao longo do tempo.
Teoria, história e o valor do contexto
Outro tema forte foi o lugar da teoria e do conhecimento histórico. O grupo reconheceu que estudar sistemas, linhagens e textos não produz, necessariamente, uma mudança imediata na execução, mas altera de forma sutil e duradoura a escuta, a interpretação e a compreensão do repertório. Nesse sentido, o encontro destacou que uma pedagogia centrada apenas em exercícios tende a empobrecer o vínculo do estudante com a tradição, tornando o estudo mecanizado e menos sustentável.
Essa ênfase no contexto apareceu também numa discussão sobre padronização e apagamento de versões. Ao comentar Xianweng Cao e sua circulação recente, observou-se que a consolidação de uma versão como “padrão” — especialmente em ambientes altamente institucionalizados — pode tornar outras linhagens praticamente invisíveis, deslocando o trabalho de preservação para comunidades fora do continente e para circuitos de pesquisa e documentação.
Modos de transmissão: do tátil ao “coração-mente”
O encontro reiterou que certos aspectos centrais do guqin escapam à escrita. A transmissão foi descrita como combinação de recursos: tablatura, imitação de gesto, explicação verbal, prática em uníssono/diálogo (duìtán) e, em níveis mais altos, a noção tradicional de kou chuan xin shou (口传心授) — uma absorção “coração-mente” que vai além do código notacional. A importância do componente tátil e corporal foi enfatizada repetidamente: afinação, postura, controle de tensão, microinflexões e qualidade de timbre dependem de demonstração e convivência sonora.
A conversa trouxe ainda um ponto muitas vezes subestimado: competências de ofício como encordoamento e afinação são parte integral da autonomia do estudante e deveriam ser ensinadas mais cedo, não deixadas à improvisação individual.
Literati, conservatório e internet: três ecologias contemporâneas
Uma contribuição estruturante do encontro propôs mapear o cenário atual em três grandes perfis sobrepostos: literati/amadores tradicionais, músicos de conservatório e músicos da internet. O eixo comparativo não foi “certo/errado”, mas sim objetivos e efeitos: a tradição literati enfatiza autocultivo, refinamento e valores; o conservatório privilegia padronização, técnica intensiva e performance pública; o circuito digital amplia acesso e visibilidade, mas pode converter o guqin em espetáculo e marca cultural.
O debate sobre composição contemporânea exemplificou essas tensões: obras produzidas em contextos conservatoriais podem negligenciar aspectos idiomáticos do instrumento, enquanto mídias populares (incluindo jogos e animações) frequentemente recuperam técnicas de ressonância e deslizamento justamente por serem percebidas como “som de guqin”.
Persistência e continuidade
Ao final, o encontro retornou ao problema prático da permanência: mais do que condições econômicas, pesam a persistência, o ritmo e a capacidade de sustentar o longo prazo — a “semente” do estudo. A NYQS foi reafirmada, nesse sentido, como espaço em que comunidade, repertório, pesquisa e troca entre pares ajudam a manter vivo o compromisso com a tradição e com seus futuros desdobramentos.







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